Papai Noel Azul



Era quente naquela tarde de dezembro de 1961. O Internacional já tinha sido dias antes declarado campeão, mas a tabela marcava como último jogo do Campeonato Gaúcho o Gre-Nal. E naquele tempo, o último clássico [Gre-Nal 157, ocorrido no estádio dos Eucaliptos, dia 10/12] decidia nos costumes do povo que cor seria o Papai Noel, vermelho ou azul.

Hoje, me espanto que isso pudesse ter tanta importância, mas tinha. Haveria de ser o Gre-Nal mais importante de minha vida. E, pelo seu desenvolvimento, creio que para tanta gente que o assistiu foi um jogo inesquecível.

Ali pelos vinte minutos do primeiro tempo, o Internacional já vencia por um a zero. Altemir, lateral-direito do Grêmio, era expulso ainda na primeira etapa. Contra dez homens, não foi difícil fazer o segundo, também de autoria de Alfeu, escore dos primeiros 45 minutos.

Lá pelos 18 do segundo tempo, houve uma falta contra o Inter e Nadir, que havia entrado no lugar de Élton, cobrou-a com um chute forte, que bateu na barreira e entrou no canto esquerdo: 2 X 1. Dez minutos depois, Marino empatou o jogo, numa cruzada de Mílton. Parecia incrível, mas estávamos a poucos minutos da final e podíamos até ganhar o jogo já perdido, com inferioridade numérica gremista em campo.

Até que o inesquecível Vieira, da ponta-esquerda, cinco minutos antes terminar a partida, cruzou uma bola alta para a área pequena. Juarez cabeceou livre, com o goleiro Silveira batido. Era inacreditável. O Grêmio praticava uma das maiores viradas da história do Gre-Nal: 3 X 2.

A torcida gremista festejava aquele gol como se fosse um título. Havia desânimo e pranto entre os torcedores colorados. Silveira, o arqueiro alvi-rubro, desmaiou após o gol espetacular de Juarez. Carregado na maca, foi substituído por Cestari.

Faltava entrar em campo, com o jogo findado, o Papai Noel azul. Sabe quem tinha sido escalado? Exatamente este que está recordando o fato. Tinha eu então 22 anos e fui convidado para a façanha.

Dias antes, prepararam-me uma vestimenta de seda azul, com gorro de pompom e tudo. E fiquei eu no vestiário todo o tempo, já dentro da indumentária, esperando apenas para calçar as botas, que eram de número 39, enquanto eu calçava 41.

Quando o Inter fez o segundo gol, tirei a quente roupa de Papai Noel e coloquei numa sacola. Nada mais havia a fazer, ainda mais com a desvantagem de dez homens em campo. Mas, à medida em que o escore ia se modificando, eu ia colocando as calças, a blusa, o gorro, na expectativa de entrar no gramado. Quando explodiu o terceiro gol, o massagista Biscardi já passava sabonete em meus pés, no objetivo de conseguir enfiar neles as botas apertadas.

A gente ficava naquele vestiário da cancha de basquete [do lado da rua Barão do Guaíba com Silveiro]. Havia uma porta de ferro e a tela separando-a da quadra. Quando o árbitro [Omar Rodrigues] terminou a partida, atirei-me contra ela, procurando ultrapassá-la. Policiais e funcionários da Federação tentaram impedir à força a minha entrada.

Os dirigentes e os reservas do Grêmio empurravam-me. Consegui passar por aquela barreira, mas percebi que não havia mais pompom no meu gorro, nem a barba postiça branca no meu queixo, que haviam sido arrancados no sururu. Mesmo assim, entrei em campo sob os vivas da torcida gremista.

Fui levantado pelos jogadores tricolores e levado até as sociais coloradas, que assistiam arrasadas ao meu desfile triunfante.

Cumpria-se uma tradição de muitos anos. Fui para o centro da cidade, cercado por duas loiras espetaculares. Era o carnaval gremista que se espraiava pelas ruas. Dali a pouco, na Borges de Medeiros, o mais numeroso cordão colorado vinha em direção contrária - aliás, o Internacional havia sido o campeão. E nem a vitória gremista conseguira arrefecer-lhes por inteiro o ânimo.

Quando aquela massa vermelha cruzou por nós, eles me atacaram. Subi num bonde-gaiola e eles entraram junto, perseguindo-me. Levei uma boa surra e minha roupa de Papai Noel foi inteiramente esfrangalhada.

Nunca mais vou me esquecer daquela impossível vitória. Nem os riscos que corri para apenas afirmar uma rivalidade que continua séria mas tinha muito mais imaginário e pitoresco que nos dias de hoje.

Depoimento do cronista Paulo Santana à Placar "Os Grandes Clássicos do Brasil", de junho de 1991.


Ficha do jogo: Gre-Nal 157 (10/12/1961):

Inter: Silveira (Cestari), Ari Hercílio, Ezequiel, Zangão, Sérgio Lopes, e Kim; Sapiranga, Alfeu, Paulo Vecchio, Osvaldinho e Gilberto Andrade.

Grêmio: Irno, Altemir, Aírton, Ortunho e Mourão; Élton (Nadir) e Mílton, Cardoso, Marino, Juarez e Vieira.

Resolvi postar este dopoimento de nosso querido Paulo Sant'ana, pois rumores dão conta de que ele em breve nos deixará, e deverá se juntar aos milhares de gremistas que nós não vemos, mas eles nos veem.

Força Paulo Sant'ana. A tua história jamais será esquecida. Um abraço de um torcedor do Grêmio para um torcedor do Grêmio.

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